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A American Airlines vendeu um passe para voar em primeira classe ilimitado e se arrependeu

Notícias

Por Gabriel Marinho

Todos nós cometemos erros na vida, é verdade. Alguns desses erros tem consequências mais dramáticas do que outras, especialmente quando são cometidos por uma companhia aérea. Desde perder a bagagem de um passageiro ou publicar uma tarifa com valor errado, em um mercado tão volátil, qualquer erro pode ser a diferença entre lucro e prejuízo para a empresa. Com tantas variáveis, talvez o maior erro que uma companhia aérea já tenha cometido foi quando a American Airlines decidiu vender um passe ilimitado para voar em primeira classe para a vida toda.


O AAirpass

Infelizmente esse momento de coronavírus não foi a única – e nem será a última – vez em que as companhias aéreas passarão por dificuldades. Nos anos 80, a American Airlines havia sofrido um baque depois da Lei de Desregulamentação de Companhias Aéreas de 1978. Em 1980, a empresa registrou uma perda de US $ 76 milhões e estava enfrentando um mercado com maior concorrência, preços reduzidos de passagens e um ambiente em constante mudança.

O recém-eleito presidente da companhia aérea, Robert Crandall, estava em uma missão para reduzir custos e liderar a empresa em uma expansão maciça.  Com a taxa de juros muito alta, a companhia se viu em uma situação financeira muito delicada e precisando de uma injeção rápida de dinheiro. Foi nesse momento que a empresa decidiu lançar o AAirpass.

O AAirpass era um passe que dava viagens ilimitadas na American Airlines para qualquer rota operada pela companhia e em qualquer classe (incluindo primeira classe), além de acesso ilimitado aos lounges Admirals Club. Os passes poderiam ser comprados para voar ilimitado em um prazo de cinco anos ou para a vida inteira.

Quando foi lançado pela primeira vez, a associação vitalícia custava US$ 250.000, com a opção de comprar um passe para voar com um acompanhante por US$ 150.000. Ao todo, o passe de titular + acompanhante custava US$ 400.000, o que é o equivalente a cerca de US$ 1.138.000 em valores atuais, algo próximo de R$ 5.794.000. 

Além de escolher em qual rota e classe voar, os detentores do passe com acompanhante podiam levar quem quisessem para viajar.

Ao todo, a empresa vendeu um total de 66 AAirpasses ilimitados de viagem. Alguns dos compradores foram o empresário Michael Dell, chefe executivo da Dell, o jogador de beisebol Willie Mays dentre outros.


Viajantes frequentes demais

Dentre alguns dos compradores do passe, alguns ficaram conhecidos por levarem o conceito de “viajante frequente” para outro nível. Steve Rothstein, um investidor de Chicago, comprou um AAirpass vitalício por US$ 233.509,93 em 1 de outubro de 1987, após um desconto de US$ 16.490,07 pelo valor em um AAirpass anterior. Dois anos depois ele adicionou um passe complementar de acompanhante. Durante os primeiros 10 anos que Rothstein foi portador do passe, ele viajou mais de 10 milhões de milhas, o que incluiu alguns trajetos, como:

  • + 1000 voos para NYC
  • 500 voos para San Francisco
  • 500 voos para Los Angeles
  • 500 voos para Londres
  • 120 voos para Tóquio
  • 80 voos para Paris
  • 80 voos para Sydney
  • 50 voos para Hong Kong

Em 25 anos, eles chegou a voar em mais de 10.000 voos usando o seu passe. Dentre viagens para visitar o Louvre em uma tarde, ou voar para a cidade Providence, em Rhode Island, só para comer o seu sanduíche favorito.

E ele não era o único, Jacques E. Vroom, um executivo de marketing que vivia em Dallas chegou a voar mais de 2 milhões de milhas por ano. Segundo relatos, ele voava para Paris ou Londres apenas para almoçar com um amigo, levou sua filha para Buenos Aires quando ela teve um projeto de escola sobre cultura Latino-americana e voltou no dia seguinte, dentre outros.


O fim da mamata

Além de não pagar nada pelos voos (nem mesmo os impostos e taxas aeroportuárias), os portadores dos passes ainda acumulavam milhas em cada um de seus voos, o que permitia que alguns passageiros acumulassem dezenas de milhões de milhas AAdvantage.

Em 2007, durante um outro período de instabilidade financeira da companhia aérea, a American Airlines designou uma unidade para investigar os detentores do AAirpass. Eles concluíram que os dois detentores supracitados estavam custando à companhia aérea mais de US$ 1 milhão por ano cada.

O programa foi chamado de “um grande desastre” para a empresa. Os dois titulares do AAirpass, incluindo seus passes de acompanhante, foram desligados do programa quando a companhia aérea os acusou de atividade fraudulenta por usarem nomes falsos para reservar passagens para seus acompanhantes.

De acordo com documentos desenterrados pelo Los Angeles Times, Rothstein fez três mil reservas em um período de quatro anos e cancelou 2,5 mil delas; Vroom reservou voos para estranhos e supostamente aceitou o pagamento de passagens em determinadas ocasiões.

Nenhuma dessas práticas era proibida no contrato original. No entanto, a American Airlines os classificou como “atividade fraudulenta” e formou uma operação elaborada para “derrubar” Rothstein e Vroom.


Venda dos passes

A companhia aérea encerrou as vendas dos passes ilimitados em 1994. Porém, em 2004, anunciou uma uma oferta única do AAirpass no catálogo de Natal de uma loja de luxo a um preço de US$ 3 milhões para o passe e de US$ 2 milhões para um passe complementar de acompanhante; nenhum foi vendido.

Hoje em dia, o passe ainda é comercializado, mas em um formato diferente. Você pode ler mais sobre isso neste post.


Comentário

É interessante notar que a American Airlines tomou a decisão de vender os passes em um momento de dificuldade. Talvez, o período que estamos vivendo agora seja ainda mais difícil do que foram os anos 80, então será que há chance de surgirem outras companhias aéreas oferecendo passes para voar ilimitado por uma vida inteira?

Eu conheço umas pessoas que dariam um baita prejuízo se tivessem um passe desses…

Caso alguma companhia oferecesse algo do tipo, você arriscaria comprar mesmo com o futuro incerto do setor? Quanto você pagaria por um desses?

O Ale já discutiu o quanto ele pagaria por esse passe aqui.

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