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Análise do novo regulamento do TudoAzul e limitação de 5 favorecidos

Notícias Programas de fidelidade

Por Alexandre Zylberstajn

Pessoal, conforme publicado aqui há duas semanas, a Azul irá restringir o limite de emissões do TudoAzul para até 5 pessoas (excluindo o próprio usuário). A companhia soltou o novo regulamento do programa no final da última sexta-feira (25) e as medidas entrarão em vigor no dia 15 de janeiro de 2020.

O post abaixo foi elaborado em conjunto Lorenzo + Ale.


O novo regulamento

A parte em que é citada a redução no limite de emissões do TudoAzul para até 5 favorecidos foi enviada por e-mail para todos os usuários do programa. Confira na íntegra:


As alterações

Em outras palavras, a partir do dia 15 de janeiro do ano que vem, cada usuário do TudoAzul poderá emitir bilhetes prêmio (passagens utilizando pontos ou pontos+dinheiro) para até 5 pessoas previamente cadastradas no sistema.

O usuário do programa poderá, a qualquer momento, alterar a relação desses beneficiários. Para cada nova pessoa cadastrada, deve-se aguardar 60 (sessenta) dias para realizar a emissão de um bilhete aéreo. Lembrando que para a inclusão dos 5 primeiros beneficiários não é necessário aguardar este prazo para emitir uma passagem.

Ficam de fora do limite de 5 pessoas:

  • O próprio usuário;
  • Crianças menores de 2 anos de idade;
  • Descendentes de primeiro grau (filhos) do titular.

O que levou a Azul a fazer tal limitação?

A intenção é coibir o comércio de milhas e, para entender o que levou a Azul a criar essa limitação, precisamos voltar no tempo e explicar o funcionamento de uma profissão que ganhou muita força nos últimos anos…

Profissão milheiro

Os comerciantes de milhas, traders ou “milheiros” trabalham vendendo pontos ou intermediando sua venda. É uma profissão com baixa barreira de entrada, que pode ser feita sem grande capital investido ou custos fixos, e de qualquer lugar do mundo. Pode ser um trabalho em tempo integral ou nas horas vagas para complementar a renda. Os ganhos podem ser altos e, nos últimos anos, apesar da crise que o país passa, a demanda só aumentou.

A descrição da profissão te atraiu? Pois é, ela tem atraído muita gente.

Como funciona?

Para facilitar o entendimento, vou dar um exemplo simplificado.

De um lado temos pessoas interessadas em comprar passagens aéreas, não importa o destino, a data ou a companhia aérea. Do outro, os milheiros! Digamos que alguém precise de uma passagem entre São Paulo e Buenos Aires.

  • Seguem os valores para compra no site da Azul:

  • Por outro lado, o mesmo voo custa apenas 20.500 pontos + taxas no TudoAzul.

Considerando promoções de compras de pontos com desconto e transferências bonificadas é possível comprar estes 20.500 pts por cerca de R$315. Um desconto aproximado de 58% considerando o custo da milha e o valor da passagem pagante.

Para os leitores frequentes do nosso site e experts em pontos, sabemos que é possível gerá-los de forma ainda mais barata.


O trabalho dos milheiros

Os interessados em comprar passagens para Buenos Aires, se pudessem optar por pagar menos, muito provavelmente o fariam, mesmo que fosse com pagamento à vista e deixando de acumular pontos. Afinal, quem não gosta de um bom negócio? A questão é que nem sempre os compradores sabem como conseguir pontos a um preço baixo: aí entra o trabalho dos milheiros!

Os milheiros são os entendidos de milhas que não perdem a oportunidade de gerar pontos a custo baixo. Muitas vezes, ainda menores do que os ilustrados nos exemplos acima. São profissionais na arte de gerar milhas baratas!

Quando um interessado em comprar a passagem conhece um milheiro, a margem pode ser enorme para os dois lados. Ambos têm a chance de sair extremamente contentes com a transação!

Só que essa compra e venda de pontos gera um problema…


A inflação dos pontos e milhas

Os programas de fidelidade são como os bancos centrais: emitem moedas (no caso, milhas). E como emitem! Foram vendidas nos últimos anos, sem nenhum tipo de controle ou limitação, bilhões de milhas. Na outra ponta, a quantidade de voos não acompanhou este crescimento e, como em qualquer economia, o resultado não podia ser diferente: os preços subiram. Ou seja, a quantidade de pontos necessários para emissões de passagens aumentou.

Os milheiros sofrem menos com a inflação dos pontos do que os usuários comuns. Por serem experts na arte de arbitrar este mercado, sabem quando e como emitir passagens por menos, aproveitando as melhores oportunidades!


Conflito de interesse nos programas de fidelidade

Durante anos, os milheiros foram e são “alimentados” pelo interesse dos programas de fidelidade de faturarem. Os próprios programas criaram as oportunidades de gerar milhões de milhas mensais a custo baixo: clube de milhas, venda de pontos, transferências bonificadas, promoções complexas e diversas outras ações nas quais em parte somente os experientes conseguiam entender e tirar o proveito máximo.

Apesar de constar nos termos e condições dos programas de fidelidade que a comercialização de milhas era proibida, raras foram as vezes em que alguém foi punido. Durante anos os milheiros fizeram e fazem negócio a “céu aberto”, bem na frente da companhias aéreas e de seus programas.


A complacência dos programas de fidelidade

Ao mesmo tempo que os programas de fidelidade tentavam, ou melhor, aparentavam tentar coibir o comércio, seguiam vendendo milhas baratas e faturando com a situação. Estranho, não acham?

De certo modo parecia que eles queriam passar a impressão de que estavam proibindo, mas não faziam nada na realidade (especialmente a Azul). Foram condizentes com a situação por interesses financeiros. Aqui eu me refiro não somente a Azul, mas outros players também.


Isso parece ter mudado

Com a limitação dos 5 favorecidos, a Azul dá um passo forte contra o comércio de milhas e ao que tudo indica, está disposta a enfrentar os milheiros, mesmo que isso acarrete em perdas financeiras para seu balanço.

Gostando ou não, é inegável a ousadia da Azul na situação. Foi a primeira. Ela tomou partido e está agindo pra valer. Gosto disso.


Exemplos ao redor do mundo

Outros programas são ainda mais rígidos. A American Airlines e a United costumam encerrar contas daqueles que comercializam milhas: não tem muita conversa com os Americanos.

A Singapore Airlines encontrou uma solução sistêmica para limitar as emissões para terceiros, que provavelmente inspirou a Azul. Vejam abaixo:

É permitido emitir passagens com pontos para apenas 5 pessoas por usuário e cada um deles não pode ser alterado durante 6 meses. Mesmo depois deste prazo, o programa cobra US$30 ou 3.000 milhas pela alteração. Lá em Singapura não existe nem a tolerância de familiares. São 5 e ponto final!

Coincidência ou não, eles são considerados um ótimo programa para acumular e resgatar pontos. Na época em que operavam entre São Paulo e Barcelona, cobravam 34.850 pontos para ida e volta (econômica).

Ah, não existe um comércio aberto e nem venda de milhas a preços baixos da Singapore. Lá, a maioria das milhas vem do cartão na proporção 1:1 ou em voos. Status, só voando com o bumbum no assento!


Mas afinal, quem é o grande impactado com a mudança?

Os milheiros são os mais impactados. O jogo para eles ficou muito mais difícil. Terão de se reinventar para seguir faturando.

No caso da Azul, por conta da limitação de apenas 5 favorecidos, pessoas que não vendem milhas, mas emitem para mais do que 5 pessoas, também serão impactadas (de forma negativa). Mas estes são provavelmente minoria.

Além deles, eu acredito que o maior impactado a longo prazo é o usuário normal. Aquele que viaja pela cia aérea e acumula uma mixaria em milhas; que compra pontos em quantidades razoáveis para uso próprio e em prol de seus familiares; que transfere pontos do cartão de crédito com bônus de 100% achando que fez um bom negócio mas que, na hora de resgatar, concorre com milheiros, que resgatam as melhores ofertas e encaram quantidades de milhas absurdas por conta da inflação… No longo prazo, eu acredito que com a limitação, o cenário pode melhorar para esses usuários, que provavelmente são a grande maioria.


O que eu penso da mudança?

Olhando unicamente pela decisão de impedir a comercialização de pontos, muita gente vai ficar brava, xingar, fazer promessas de nunca mais usar o programa – é natural. É mais simples reclamar de algo que antes podíamos fazer e agora não mais, mas não é só isso. Acho que banir o programa pode ser um caminho, mas pouco eficiente – dado que é justamente dos afetados negativamente que a cia quer “se livrar”.

Eu não acho que o TudoAzul é vítima. Ele foi parte beneficiária de todo o cenário (que ele mesmo construiu) e percebeu que no longo prazo a permissividade com os milheiros não era o melhor caminho.

A mudança é grande, praticamente da água para o vinho. Essa alteração repentina tem um preço alto e imagino que a Azul sofrerá bastante com perda de receita.

Mais uma vez, eu lembro que os próprios programas de fidelidade criaram esta situação – não são coitados. Nem tampouco os milheiros, que até então souberam aproveitar as oportunidades legalmente e nada fizeram de errado perante a lei.


Antecedência

A Azul falhou no aviso prévio.

Uma questão importante é a mudança com pouca antecedência, especialmente considerando aqueles participantes que tinham muitos pontos no programa. Aqui, eu me coloco no lugar destes usuários e me sentiria muito prejudicado. A Azul deveria aplicar a regra para novos acúmulos.

Concordando ou não com a questão, alterar a regra no meio do jogo com pouco mais de 60 dias de antecedência é grave.


Agora é olhar para frente! A Azul tem muita responsabilidade!

Eu não sou contra alguém que queira vender esporadicamente suas milhas de forma moderada e acho que o limite de favorecidos é um dos caminhos para controlar essa questão.

O mercado de compra e venda de milhas não vai acabar unicamente devido à alteração da Azul, mas acho que outros programas seguirão este mesmo caminho. Os milheiros terão de se reinventar; achar outras formas de faturar no mercado de fidelidade. E vão: são bons em negócios.

No longo prazo, com menos milheiros, a Azul poderá reduzir o preço dos resgates e usar da personalização das ofertas para recompensar quem de fato merece ser reconhecido por sua fidelidade.

Não sou ingênuo em achar que isso acontecerá do dia para a noite – não vai, mas sem os grandes milheiros, o caminho será mais fácil e a Azul dependerá unicamente de suas próprias intenções para reduzir os valores inflacionados dos resgates.

Agora, Azul – a bola está com você! Desejo boa sorte em sua escolha – eu acredito que fizeram bem e espero não me decepcionar.


Abrindo espaço para um milheiro

Tenho muitos amigos milheiros, sobretudo leitores. De maneira muito civilizada costumo debater sobre o assunto. Não sou dono da verdade e achei cabível abrir o espaço neste mesmo post para que alguém fizesse um contraponto a minha opinião.

Após ler meu artigo, o meu amigo “John Blue Miles” (nome fictício) escreveu:

“Eu me considero um milheiro em nível expert, já estou nesse mercado há 3 anos e já cheguei a gastar em um só mês a bagatela de R$ 182.500,00 em meu Amex TPC, transformando tudo isso em milhões de pontos e aplicando muitos dos meus conhecimentos do mercado de ações. Vendo para empresas intermediárias, amigos e familiares, sendo estes últimos, a maior forma de obter ganhos maiores.

Esse mercado definitivamente não é para leigos e no final, na minha visão, ninguém perde, uma vez que as companhias aéreas precificam seus bilhetes “em dinheiro” ou “em pontos” pelo preço que elas entendem ser justo e os programas também precificam seus pontos conforme aquilo que os bem remunera. O milheiro se financia com seus cartões de alta renda e não gasta praticamente nenhum centavo de seus recursos. Já o passageiro “cliente” do milheiro ganha um belo desconto. No fim, todo mundo ganha.

Acredito que o milheiro correto traz bons impactos para o mercado aéreo, uma vez que eles podem contribuir com a inclusão de pessoas nesse segmento que muitas vezes são excluídas por diversas razões.

Não acho justo dizer que o milheiro causa inflação dos preços dos bilhetes, uma vez que a oferta é limitada e eles ainda representam um baixíssimo percentual das emissões das aéreas. Eles atendem a uma demanda reprimida e não subtraem passageiros das companhias, agindo como um agenciador, ainda que não esteja regulamentada essa profissão.

O Tudo Azul é o único programa que não me bloqueou ainda, mesmo limitando a 20 emissões / CPF ano. Acreditem, já emiti 1.250.000 pontos em bilhetes no programa em um só dia na última campanha da Livelo com o Tudo Azul e nem sequer recebi uma ligação para confirmação de dados. Não houve fraude, não houve ato ilícito e nem tampouco descumpri qualquer lei brasileira. Tudo foi devidamente pago – inclusive minhas obrigações com o fisco. Pago o imposto de renda em todas operações.

Não somos obrigados a participar dos programas de fidelidade de nenhuma companhia aérea, mas a partir do momento em que adquirimos pontos com nossos recursos e pagamos por eles, entendo que estes passam a ser propriedade nossa, e não da companhia aérea, uma vez que foram adquiridos de forma onerosa. Tais pontos devem inclusive ser transferidos aos herdeiros legais em caso de falecimento, e não “cancelados”, como pregam todos os programas.

Essa limitação imposta pelas companhias aéreas trará impactos financeiros negativos aos programas no ano de 2020 e com o tempo as companhias vão entender o valor dos milheiros para os seus negócios, que trabalham em cima da ineficiência temporal dos sistemas de precificação delas mesmas.

O Tudo Azul é o único programa do Brasil que não enfrenta ações judicias sobre essa cláusula restritiva e acredito que ele começará a sofrer com tais ações após a execução dos bloqueios, com o novo regulamento. A partir de 15 de janeiro de 2020 o programa não terá nenhum milheiro atuando, pois as mudanças foram extremamente drásticas e restritivas. Restaram-me dos milhões de pontos que acumulei apenas 435 e é provável que eu me despeça da Azul na Black Friday, quando vou apostar na minha última grande transferência para o programa.

Enquanto os entendimentos do Poder Judiciário são os mais diversos sobre o tema, vamos encontrando oportunidades de negócios em todos os mercados. O que as companhias e seus programas não podem perder de vista é que estamos em todos os segmentos buscando forma de lucro e que quem começou essa guerra não fomos nós, foram elas. Os milheiros são crias das companhias aéreas e espero que a justiça brasileira reconheça em breve que pontos / milhas são uma moeda e pertencem aos clientes que os adquirem, e não às companhias aéreas.”

Ao meu amigo milheiro John, eu agradeço o depoimento.


Agora é a sua vez!

Você é contra ou a favor da limitação dos cinco favorecidos? Acham que ela trará benefícios ao usuário normal? Acham que Latam, Smiles e Miles & Go podem seguir o mesmo caminho?

Aproveite o espaço para registrar sua opinião!

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